HBDia Post – Ademir do Arari, revelação da MPB (Música de Pobre Brasileiro)

Em “parceria” com o conterraneo @izzynobre, Colocarei de vez em quando alguns dos melhores posts do Hoje é um Bom Dia.

 

Pra começar, temos uma pérola para compartilhar…. Leiam e podem rir a vontade!

Se você mora no Sul/Sudeste – como a maioria dos leitores do HBD -, a figura acima representa apenas alguém tocando teclado. Ou melhor, ela representa alguém com os dedos em cima de um teclado. Pra estar tocando, teria que ser um GIF animado. Mas você entendeu.

Para nós nordestinos, entretanto, há todo um contexto cultural atrás do forrozeiro, o bardo do século 21 (no Ceará, ao menos).

Nasci em Fortaleza, então é desnecessário dizer que ouvi mais forró na minha vida do que eu gostaria. Meu contato com este personagem cultural que é o forrozeiro (também conhecido como seresteiro em alguns círculos) remete à minha infância (Knuttz, se você está lendo isso, deve ter experimentado o mesmo que eu).

Entendam logo de cara: não estou falando do forrozeiro pop, o forrozero glamourizado que aparece no Faustão como o Frank Aguiar da foto. Estou me referindo aqui do Frank Aguiar de dez anos atrás, desconhecido, pobre, e que ganhava trocados na faixa dos dois dígitos pra se apresentar em muquifos como bares decadentes nas esquinas dos bairros mais decrépitos da cidade. Tou falando do forrozeiro do povão, que é exatamente igual a alguém que não sabe absolutamente nada sobre música, com a diferença de que arranjou um teclado emprestado.

Às vezes eu estava na casa de algum amigo desafiando a comer um palito de fósforo aceso ou algo assim, e uma pequena platéia num barzinho das proximidades chamava nossa atenção. Os espectadores sentavam ao redor do homem – naquelas clássicas cadeiras de metal com marcas de cerveja pintadas no encosto -, enquanto o cara montava seu teclacinho Yamaha em cima de uma mesa que combinava com as cadeiras.

Quando tudo estava resolvido, o teclado já estava conectado às precárias caixas de som do estabelecimento e já haviam chutado pra fora o bêbado que menosprezava o talento do músico e alegava tocar melhor que ele, começava o mini-show. O tecladista ligava o acompanhamento automático de seu instrumento (aquele que reproduz uma melodia simples com a batida de uma bateria), e preenchia as lacunas com seus próprios acordes, voz desafinada e característica falta de tino musical.

E nós, no quintal do Juninho, acompanhávamos a apresentação. Entre canções aclamadas na cena forrozeira, o cara sempre tentava encaixar uma composição própria. Esta recebia uma dose extra de falta de talento, uma vez que foi produzida por alguém com menos conhecimento musical quanto os supostos profissionais do segmento forrozeiro.

As músicas compostas pelo forrozeiro amador eram O verdadeiro espetáculo. Elas sempre exibiam uma quantidade homogênea de erros gramaticais (um reflexo da ignorância do povão), temáticas no mínimo lúdicas (tudo virava tema de música, de chifre sofrido pela ex-namorada a uma topada no pé da cama na noite anterior) e uma surpreende sensação de que o autor deveria tentar qualquer coisa na vida, exceto fazer música. Lembro que, sentados no muro assistindo a apresentação no barzinho da frente, constumávamos imaginar que tipo de tortura seria necessário suportarmos para concordar em produzir algo tão terrível quanto as canções do forrozeiro.

Então. Não é necessário dizer que forrozeiros tem o talento musical equivalente ao de uma vítima de paralisia cerebral sem dedos e surda. Por causa disso, quando o Humberto me mandou as .WMAs de um suposto “Ademir de Arari”, eu sabia que poderia esperar qualquer coisa destes arquivos, exceto música.

Lembram no post sobre A Vila, quando eu falei que algumas coisas são tão terrivelmente horríveis que conseguem fazer você pensar “porra, mas que merda!” mesmo quando você não está esperando muita coisa delas?

Poisé.

Sim, o cara escreveu uma música sobre uma chinela. Aos que estranharam a grafia da palavra, cabe uma explicação: nordestinos falam “chinela”, e não “chinelo”, sei lá porque.

A música começa com uma constrangedora introdução de teclado, e aos 17 segundos Ademir entra com sua voz. Eu me sinto tentado a aloprar o cara dizendo que ele sai mais do ritmo do que o Muhamad Ali batendo punheta, mas aí lembrei que pra SAIR do ritmo, você precisa ter estado no ritmo ao menos uma vez – e não é o que acontece nessa música. Ademir oscila entre se adiantar e se atrasar no ritmo, mas jamais canta no ritmo correto da melodia. Se isso não é o bastante para você rir de pena do projeto de cantor, avance a canção pra marca 1:12 (um minuto, doze segundos) – Ademir erra a letra da PRÓPRIA música. Inacreditável, mas real.

Some-se isso à letra da canção (em especial ao poético “fiquei admirado/fiquei pobre coitado/olhar a chinela/chinela querida/sei que vais fazer parte da minha vida”) e você tem aí no seu winamp a pior composição musical da história.

…foi o que pensei, até baixar a segunda música do cara.

Essa aí é tão horrível quanto a anterior, com a exceção de que o cantor decidiu torna-la mais ridícula ainda com oferecimentos especiais a indivíduos com nomes no mínimo duvidáveis (”Pépson”? Ouvi direito essa porra?). Aliás, oferecimentos, não: ofrecimentos.

Ademir decidiu cortar o papo mole e partir direto ao ponto. Assim sendo, começou a sair do ritmo mais cedo nessa música. Assim como o corredor de uma maratona que reúne todos os seus esforços na última curva da corrida, Ademir reuniu toda a sua habilidade de errar o ritmo de uma música e em alguns momentos parece estar cinco segundos adiante da melodia. Uma prova disso é que ele conclui a cantoria quase dez segundos antes do fim da música de fato.

Não satisfeito em assassinar o português, Ademir ataca a língua inglesa.

Sim, é isso mesmo que você leu: o cara que não sabia pronunciar “oferecimentos” tenta cantar em inglês. Aliás, a julgar pelo que ouvi, dizer que o cara tá tentando é exagero – acho que nem tentando ele está.

Ri por uns quarenta minutos, até decidir que algo tão engraçado assim não é pra ser apreciado às escondidas. Chamei meu pai pra ouvir as músicas comigo. Ele riu ainda mais que eu, e perguntou por que eu não escrevia um texto tirando onda com o “cantor”, expondo seu trabalho musical aos desocupados.

Dito e feito.

Ademir não canta muito bem, mas como humorista ele vai muito longe – mais longe até, eu diria, que a distância de seus versos ao ritmo das canções.

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